Dois são assassinados por dia na Paraíba

Cidades – Domingo, 2 de Dezembro de 2007 – B8

Dois são assassinados por dia na Paraíba

Um estudo do Ministério da Saúde em parceria com o Ministério da Justiça (Redução do Homicídio no Brasil) revela que o número de paraibanos assassinados vem aumentando a cada ano e que pelo menos duas pessoas são executadas, por dia, na Paraíba. Segundo a pesquisa, divulgada em outubro deste ano, foram registrados 784 mortes em 2006, dos quais 604 com armas de fogo. A taxa de mortalidade por armas de fogo na Paraíba chegou, em 2006, a 34,9 homicídios para cada 100 mil habitantes. Em João Pessoa, a taxa chegou a 32,8, bem próxima à do Rio de Janeiro (33,4).
O dia 6 de outubro deste ano não sairá mais da mente do vigilante Paulo Roberto do Nascimento, 44 anos, morador do bairro de Cruz das Armas, em João Pessoa. Nesse dia, ele perdeu o filho mais velho (Paulo Roberto Júnior, 22 anos) para a violência. “Ele morreu dois dias antes de completar 23 anos. Ele havia ido levar a namorada, às 4h30 da madrugada, na parada de ônibus para ela ir ao trabalho, justamente para ela não ser assaltada ou atacada. Na volta, dois homens assaltaram ele e como ele não tinha nada de valor, os bandidos disseram: ‘cutuca esse cara! Dá uma facada nele, porque não tem nada pra roubar! E meu filho morreu”, contou.
Ele revelou que o cuidado agora é redobrado para não perdeu os outros filhos de 21, 18 e 10 anos. “Qualquer demora de um filho meu, vou à procura. Agora, não tenho mais sossego! Penso em me mudar daqui. Queria que a Justiça mudasse. Quem matasse pra roubar teria que ter pena de morte ou prisão perpétua. A vida perdeu o valor! Meu filho morreu porque não tinha nada de valor para os bandidos levarem”. Isso é um absurdo”, desabafou o vigiçlante Paulo Roberto.Segundo o delegado da Polícia Civil Manoel Neto de Magalhães, Manaíra, em João Pessoa, é um dos mais perigosos em relação a assaltos e roubos. A orientação dele é que os pais nunca percam o sentido de vigilância sobre os filhos. “Saber para onde os filhos vão, com quem e que horas voltam”, apontou.
Essa orientação já está sendo seguida por várias famílias da Capital. A aposentada Rita Rodrigues, 64 anos, moradora de Manaíra, revelou que tem cuidado redobrado com os netos, principalmente com o pequeno Cauê, de 4 anos. “Ele só vive dentro de casa. Às vezes, quando brinca um pouco aqui na calçada do mercadinho, estou perto vigiando”,
“Aqui, sempre há assalto. Já tivemos o mercadinho assaltado duas vezes. Hoje, é muito difícil criar os filhos, por causa da violência. Não podemos soltá-los”, concluiu a filha de dona Rita, a comerciante Maria Rosenilda Félix da Silva.

“A solução é dar mais educação”

José Carlos Lima, 17 anos, cursa o 1º ano do ensino médio e faz parte da Associação desde os 11 anos. Ele garante que a falta de segurança também é apontada pela maioria dos jovens. Ele disse que outro grave problema é o grande número de jovens se envolvendo com álcool e as drogas. “A solução é dar mais educação mesmo! Em casa e na escola. Pois, se o jovem tem uma boa formação e educação em casa, se tem uma família legal e estruturada, dificilmente irá se envolver com coisas erradas, drogas e crimes”, apontou.
Ele disse que muitos jovens têm medo de se envolver em briga, porque é muito fácil. “É um medo geral. Temos medo também de sermos vítimas de uma bala perdida. Conheço um jovem da comunidade que já foi vítima de violência por causa das drogas. Ele se tornou viciado e acabou sendo assassinado, aos 16 ou 17 anos, por um colega, que também era usuário de drogas. Muitos colegas meus têm medo de sair à noite, por causa da violência. Ninguém sabe se será a próxima vítima. “, comentou.

Escolha dos representantes

Para José Carlos, para combater a corrupção é preciso saber escolher quem serão nossos representantes. “E ao descobrir que está havendo fraude, deve denunciar ao Ministério Público e fazer mobilizações”, sugeriu.
O jovem disse que o grupo também discute a discriminação racial, o preconceito entre gêneros e a forma de combater isso. “Precisamos fazer passeatas e reuniões para abrir a cabeça dos jovens, para que entendam que somos todos iguais”, afirmou.
A questão da educação é outro grave problema, segundo José Carlos. “Não é que os jovens não tenham escolas. O fato é que o ensino precisa ser melhorado para atender ao que precisamos. A escola, muitas vezes, não responde às nossas expectativas. As escolas não são muito atrativas. Eu mesmo, às vezes, acho chato o método de ensino, porque não é o que a gente espera e sonha”, revelou.
José Carlos disse, ainda, que a discriminação racial existe dentro da comunidade e também do ambiente escolar. “Na escola, o preconceito se multiplica. Tiram brincadeira comigo porque tenho orelha grande. Eu já superei tranqüilamente, mas nem todos os jovens superam. Isso prejudica o rendimento porque a pessoa não consegue se expressar na escola, fica retraído”, observou.


Henriqueta Santiago